Nos dias que correm felizmente cada vez mais os pais, professores e figuras de participação diária na vida da criança estão mais despertos para sinais de atraso no desenvolvimento, perturbações de desenvolvimento, problemáticas emocionais e/comportamentais, dificuldades de aprendizagem e tantos outros sinais de alarme.

No entanto, perante isto nem todos sabemos como agir: há quem queira acreditar que tudo mudará para melhor, há quem se lembre de ter as mesmas dificuldades naquela idade e acredita que acabou por se “sair bem”, para outros de nós é simplesmente difícil pensar neste tipo de questões na sua família, com as suas crianças…Mesmo com todos estes pensamentos, há que refletir sobre esta questão: intervir ou esperar pelo diagnóstico?

Há vários pontos que sugiro que reflitam para tirarem as vossas próprias conclusões:

  1. Terapia não é só para quem tem diagnóstico logo não significa que quem tenha acompanhamento terapêutico tenha um diagnóstico ou precise de um. Terapia é sinónimo de estimular, reeducar e reabilitar, tenha ou não diagnóstico. Tal como nós adultos, por vezes, só precisamos de um empurrão para aprender a fazer algo ou superar uma dificuldade, há crianças que, muitas das vezes, só precisam mesmo disso: um “empurrão” que não tem de vir por um diagnóstico e sim pelo respeito às dificuldades e ao ritmo de desenvolvimento.
  2. O diagnóstico permite-nos nomear todo o seu conjunto e pode, eventualmente, ajudar-nos a perceber um pouco mais sobre o que esperar, a que devemos estar atentos ao longo do desenvolvimento mas não faz a criança mudar o seu comportamento, as suas emoções, as suas áreas fortes e menor fortes, os seus sintomas e caraterísticas. A intervenção sim.
  3. Quanto mais cedo a intervenção, mais progresso existe. A plasticidade cerebral – a capacidade para o cérebro criar novas ligações, que se traduzem em novas aprendizagens, e para se adaptar e moldar – é muito maior nas primeiras idades. Logo quanto mais cedo se estimular, se procurar educar e/ou reeducar o cérebro sobre ações motoras, ações cognitivas (memória, capacidade para planear, linguagem, atenção, etc) e sobre as emoções e comportamento, mais hipóteses há de o progresso ser mais imediato e tornar-se algo mais intrínseco à criança, mais natural.
  4. Por ter passado pelas mesmas ou por dificuldades semelhantes e mesmo sentindo que acabou por se “sair bem”, lembre-se que, muito possivelmente, nessa mesma altura, gostaria de ter tido apoio para evitar passar por alguns sentimentos que o poderão ter moldado na forma como vive a sua vida.

Agora perguntam-me: então ao mínimo sinal devo recorrer à terapia? Também não é isso que estou a dizer. Há casos mais graves em que a primeira abordagem deve ser pedir uma avaliação do desenvolvimento sim, mas noutros há também vários pontos a refletir antes de se recorrer à terapia:

  1. Conhecer o desenvolvimento e as aprendizagens esperadas para a idade da criança – junto de profissionais, livros e artigos recomendados;
  2. Observar e refletir sobre os estímulos a que a criança esteve e está exposta tal como os contextos (brincadeiras, tempo de qualidade em família, dinâmica familiar, escolar, ambiente, etc) e a forma como se comunica e capacita a criança no seu dia-a-dia;
  3. Perceber até que ponto as dificuldades ou necessidades estão a condicionar a criança no seu dia-a-dia e nos vários contextos diários.
  4. Adoptar pequenas estratégias e testá-las;
  5. Se após esta reflexão e a adaptação de fatores que acreditam que podiam estar a condicionar o desenvolvimento da criança de alguma forma, não se verifiquem alterações ou continuem a existir outros sinais de alarme, então siga para:
  6. Falar com o pediatra ou pedir uma opinião junto de um terapeuta que esteja dentro do desenvolvimento infantil típico e atípico como o Psicomotricista, um terapeuta que seja da área em que se verificam alguns sinais de alarme específicos (ex: dificuldades na linguagem – Terapeuta da fala) e/ou um Educador Parental que lhe consiga ajudar a refletir sobre a ligação com a criança, que lhe dê estratégias para comunicar e capacitar a criança de acordo com o seu perfil e até mesmo para lhe ajudar a analisar os comportamentos e necessidades por detrás dos comportamentos da criança.
  7. Atenção: qualquer retrocesso significativo ou sinal de alarme deve ser sempre partilhado junto do especialista que consulte. Tudo conta!

Há um pensamento do qual me faço acompanhar sempre: quando ajudamos a criança, ajudamos na sua dificuldade, não só no seu diagnóstico! E uma prova disso é que: duas crianças com um mesmo diagnóstico, têm muitas vezes dificuldades numa mesma área que se expressam de formas diferentes, implicando uma intervenção diferenciada. O diagnóstico pode ser importante, mas a intervenção é ainda mais determinante!

Blog Mais Q’ Especial

About the author

Psicomotricista, apaixonada por conhecer e partilhar. Autora do blog 'Mais q'Especial'.

Leave a Reply

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.